Geladeira

A geladeira lá de casa nunca guardou apenas comida. Só nas madrugadas, talvez, quando a fome bate na porta já que você esquece as horas sem comer e o relógio fica avançado para o tempo dele. É normal. Pelo menos pra mim, que nunca fui exatamente um bom sinônimo de normal.

Na verdade sempre tive dificuldades em encontrar sinônimos meus por aí e isso às vezes é tão bom quanto só. Uns sinônimos fazem bastante falta de vez em quando e tanta singularidade, pode crer, tem suas chatices.

Mas este devaneio é sobre a geladeira lá de casa, não sobre sinônimos – existe sinônimo para geladeira? Coitada – acabei de ir até ela, agora mesmo, procurando uma ideia. Abro e fecho a porta, ela não estava lá. Anteontem, vi a minha irmã abrir a porta buscando uma melodia para sua música, enquanto ela se segurava entre os iogurtes batendo o pé ritmadamente, com a mão no queixo. As geladeiras são ótimas conservantes de cantigas.

Observe bem. Sua tia avó provavelmente abriu a porta, cantarolou e foi embora flutuante alguma vez.

Digo isso porque as pessoas chegam distraídas, abrem a porta da geladeira, fazem algo particular da sua coisa buscada em questão e vão embora determinadas a sabe lá o quê sem nunca pegar comida. Nunca. Ou melhor, quase nunca, não esqueçamos das madrugadas.

Elas agarram alguma coisa invisível congelada por entre as cumbucas e potes gélidos. Algumas vezes saem frustradas, mas eu entendo. Se suas perdas não estão na geladeira, estão onde, meu Deus do céu?

Ontem, por minha vez, abri a porta ao meio-dia, procurando teimosia e ela estava, como sempre, muito fria. Essas coisas não se esquentam no forno, todo mundo sabe.

Pois. Entre o meu abrir e fechar de portas, estou aprendendo a deixar as friezas pra lá.

Clarice Freire.

 

A nice drawing of a freezerless refrigerator

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *