Antiquada

Em uma cidade antiga, muito antiga, de quatro ou cinco casas antigas, muito antigas, ela resolveu fugir da cama.

Esperou anoitecer, até as paredes dormirem, para sair. Correu como quem ama.

Se soubesse para onde ia, não seria ela.

Simplesmente foi, porque a vontade de sentir o vento frio no rosto

a consumia feito vela.

O chão de pedra gelada nos pés sem sapatos. Nos olhos, o escuro.

Tinha alguma coisa naquela noite que a chamava pela janela e ela foi. Por cima do muro.

Se não tivesse ido, não seria ela.

Se não tivesse ido, seria morta.

Foi correndo pelo escuro sem saber aonde davam a viela

e a estrada torta.

Tão escuro era, que esquecia como era a luz.

Corria, corria, corria e, de repente,

esqueceu o que era o dia.

Percebeu aos poucos que a viela era tomada por vaga-lumes. Dezenas, centenas deles.

Não eram capazes de alumiar a noite em dia com seu brilho raro.

Mas a fizeram lembrar

como era o claro.

E saber por que, afinal, fugiu da cama.

É que a cidade não entendia, a agonia de quem ama.

E da noite faz cantiga.

É que dizem que o amor é coisa antiga.

Clarice Freire.

Antiquada.

 

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