Tremeluzente.

Uma chama andava tão trêmula que não lembrava nem mesmo como se chamava. A chama não chamava mais ninguém também. Também pudera, ninguém gosta de chamas trêmulas. “Mas as chamas são trêmulas”, você vai me dizer. Acho que não, acho que as chamas são tremeluzentes. Tremem, mas suas luzes as deixam luzentes: muito mais que trêmulas apenas.

As chamas também têm uma chama para arder sem se consumir. Não me pergunte como, isso é um tipo de dom das chamas e quem não é chamado não pode entender. As chamas deixam os outros chamados, se é que você me entende. E quando elas ficam trêmulas, se consomem muito rápido, é um perigo. Assim elas podem desaparecer num estalo.

Pois essa chama andava tão trêmula que não tinha mais uma chama pra ninguém ser chamado e, na memória, era difícil achar o que foi tremeluzente um dia. Estava ficando escuro e frio demais e a memória precisa de Sol para combater as traças. Sem saber mais pra onde ir, a chama trêmula esperou o golpe fatal de uma rajada de vento mais forte que passeasse com mais ânimo por alguma esquina e a acertasse em cheio.

Passava por ali um viajante muito simples. Tinha algo que chamava no seu jeito estranho: pés de vento, coração incandescente e os olhos tinham cara de abraço quente. Ele carregava uma caixa na mão, cheia de sussurros que colhera pelo caminho. Eram difíceis de achar, esses sussurros.  Mas ele sabia como colhê-los e ensinava pelos lugares frios. Não me pergunte como, isso é um tipo de dom dos viajantes e quem não viaja não pode entender.  Seus olhos abraçaram a chama à primeira vista e, desde então, analisou com generosidade seu problema. Rapidamente ele sentiu a falta do luzente no trêmulo da chama.

Abriu sua caixa de sussurros derretendo o fecho com um pedacinho do seu coração incandescente. Escolheu os sussurros com cuidado. Seus olhos abraçavam um a um, soltando-os na chama, que tremia a cada um. Hora se apagava, hora se acendia, hora fria, hora quente. De um jeito sussurradamente eloqüente, a chama tremeu pela última vez.

E acendeu

Outra vez,

Tremeluzente.

Clarice Freire.

Porque encontramos um desses viajantes por esses dias. Esse post é um agradecimento a todas essas criaturas corajosas que saem por aí reacendendo chamas, com suas caixas de sussurros. Acho que todo mundo sabe quem são os seus.

E às chamas, pela valentia de teimarem em tremeluzir.

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