quinta-feira, 30 de junho de 2011

Brechó vermelho-mofo.


Toda elegante em suas peças de brechó, a jovem senhora de meia idade ia todas as noites tomar um conhaque num bar de aspecto maltrapilho, centro da cidade.

Colar cor de bronze, anéis de plástico, unhas fluorescentes e cabelos encaracolados, leia-se franja encaracolada, até a cintura. Normalmente ornamentado com uma flor artificial vermelho-mofo.

Entre goles e goles de solidão noturna, entre as risadas e barulho de pedras de dominó, sua pose com o conhaque na mão era quase poética. Tinha um quê de melancolia seu sorriso, leia-se, desvio muscular.

E entre um gole e outro, ela conversava com o cachorro também frequentador assíduo do mesmo bar. O cachorro cansava da mulher e suas peças de brechó e voltava a lamber a Lua da poça d’água do chão.

O dominó cansava da mulher e calava as pedras.

O bar cansava da mulher e fechava as portas.

A noite cansava da mulher e amanhecia.

E ela, cansada, já estava ficando com cara de peça de brechó.


Clarice Freire

terça-feira, 21 de junho de 2011

Vaga Lumes.



Em uma cidade antiga, muito antiga, de quatro ou cinco casas antigas, muito antigas, ela resolveu fugir da cama.
Esperou anoitecer, até as paredes dormirem para sair. Correu como quem ama.
Se soubesse para onde ia, não seria ela.
Ela simplesmente foi, porque a vontade de sentir o vento frio no rosto,
A consumia feito vela.
O chão de pedra gelada nos pés sem sapatos. Nos olhos, o escuro.
Tinha alguma coisa naquela noite que a chamava pela janela e ela foi. Por cima do muro.
Se não tivesse ido, não seria ela.
Se não tivesse ido, seria morta.
Foi correndo pelo escuro sem saber aonde dava aquela viela,
E a estrada torta.
Tão escuro era, que esquecia como era a luz.
Corria, corria, corria e, de repente, esqueceu o que era o dia.
Percebeu aos poucos que a viela era tomada por vaga lumes, dezenas, centenas deles. Não eram capazes de alumiar a noite em dia com seu brilho raro.
Mas a fez lembrar,
Como era o claro.
E saber porque, afinal, fugiu da cama.
Era que a cidade não entendia, a agonia de quem Ama.
E da noite faz cantiga.
É que dizem que o Amor é coisa antiga,
Muito antiga.

Clarice Freire.

Antiquada assumida.

terça-feira, 14 de junho de 2011

Sobre Dragões, Fogos e Pipoca.


Meu pai sempre dizia que aquela mancha na Lua era São Jorge lutando com um dragão.
Eu passava noites e noites tentando identificar um dragão naquela coisa indefinida e, ainda mais, esperava ver o tal cavaleiro correndo. Mas eles pareciam imóveis. Perguntando, meu pai respondia: “Você não sabe que a Terra gira muito rápido? Por isso dá a impressão que eles estão parados, mas não estão.”
Eu acreditava e ficava em uma eterna aflição. Morria de pena de São Jorge, que parecia não derrotar nunca o tal dragão enorme. E se um dia o monstro vencesse? Havia noites em que eu simplesmente esperava a notícia. O que aconteceria se o monstro ganhasse? Bom. Isso era óbvio. Ele atacaria a Terra e o mundo ia acabar. São Jorge era muito corajoso em nos proteger assim. Como as pessoas conseguiam ficar tão tranquilas se uma batalha estava sendo travada todas as noites no céu?
Até que chegou a noite de São João em Gravatá, depois dessa revelação seriíssima. Bombas, fogos de artifício, traque de massa, rojões, tudo me deixava de sobressalto.
Fiz minha pergunta mais inteligente. Daquelas que todos devíamos fazer com esse alvoroço que o mundo insiste em viver:
-Pai, pra quê isso?
A resposta foi incrível:
-Pra acordar São João.
Acordar?
-E ele está dormindo?
-Está, por isso soltamos fogos pra acordá-lo.
Nova aflição: o que acontece se ele não acordar?
Isso também era óbvio. A gente ficava sem São João, balão e pipocas. Pior. Podia ser que não amanhecesse. Ou que o mundo acabasse, claro. Essa é sempre uma alternativa.
Que injustiça! Enquanto um santo passava todas as noites em claro lutando bravamente para salvar a Terra, São João dormia, nos colocando em risco?
Nada fazia sentido.
O que importa é que naquela noite, São João resolveu acordar e voltei aliviada para casa. Cheia de pensamentos obscuros sobre dragões, Lua, Santo preguiçoso, pipoca e uma noite super mal dormida por causa dos fogos de artifício.
Voltando pra Recife, chego à porta do elevador e observo como ele sabe exatamente onde estamos, sobe sem errar pra onde o mandamos e se move magicamente. Medo. Já estava pensando nas olheiras para a próxima pergunta. Mas a curiosidade vencia. Sempre.
-Pai.
-Oi.
-Como é que o elevador funciona?
- Tem uns homenzinhos trabalhando lá no teto. Uns cem deles, tipo duendes. Eles escutam o que a gente tá pensando e puxam as cordas.
Choque.
-Mas isso não é trabalho escravo?
-Não, eles são feitos pra isso.
Agora sim eu estava chocada. E se eles não tivessem força um dia para segurar as cordas? Isso também era óbvio. O elevador cairia. Ou o mundo ia acabar, claro.
Em solidariedade a São Jorge e aos homenzinhos, evitava pegar elevador à noite, pra pelo menos alguns conseguirem dormir enquanto os outros puxam a corda. E eu fazia pipoca olhando pra Lua, esperando a notícia.
E pensar que eu adorava São João.
Faço pipoca em casa.

Clarice Freire.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...