segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Silêncio



O susto é ver o quanto o silêncio, a princípio, é barulhento. São milhares os meus moradores e eles adoram falar ao mesmo tempo, em voz alta, quase uma família italiana comendo macarrão. Ou a minha mesmo, no Natal.
Persistindo um bocado para não desistir, até entre esses moradores o assunto se acaba e a maioria das falações – se descobre – nem tem tanta importância. Pronto. Os sussurros, mais tímidos, começam desconcertados a soltar algumas palavras murchas. Com mais intimidade, aumentam o tom de voz e é como ouvir a noite, com todos os grilos que cantam despercebidos. E você mesma vira uma nova amiga a ser conhecida. Senta-se a mesa com ela, pede-se o café quente. Olha-se com intimidade (existe coisa mais atraente que olhos se olhando cúmplices?) e delicia-se com as novidades que os sussurros gostam de contar secretos.
Uma observação: não é porque são sussurros que são discretos.


Clarice Freire.

Abandono


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