O olho aceso.

 

No importa cuál sea su razón para querer aprender a enrollar sus propios cigarrillos, estamos aquí para ayudarle y conseguir que huffing en la recta y estrecha. ¡Aquí está la parte donde usted imagina poner su primer cigarrillo rodado a sus labios (electric cigarette rolling machine) con ese sentido del orgullo! ¡Sí! ¡Vaya los consiga el tigre!

Geladeira

A geladeira lá de casa nunca guardou apenas comida. Só nas madrugadas, talvez, quando a fome bate na porta já que você esquece as horas sem comer e o relógio fica avançado para o tempo dele. É normal. Pelo menos pra mim, que nunca fui exatamente um bom sinônimo de normal.

Na verdade sempre tive dificuldades em encontrar sinônimos meus por aí e isso às vezes é tão bom quanto só. Uns sinônimos fazem bastante falta de vez em quando e tanta singularidade, pode crer, tem suas chatices.

Mas este devaneio é sobre a geladeira lá de casa, não sobre sinônimos – existe sinônimo para geladeira? Coitada – acabei de ir até ela, agora mesmo, procurando uma ideia. Abro e fecho a porta, ela não estava lá. Anteontem, vi a minha irmã abrir a porta buscando uma melodia para sua música, enquanto ela se segurava entre os iogurtes batendo o pé ritmadamente, com a mão no queixo. As geladeiras são ótimas conservantes de cantigas.

Observe bem. Sua tia avó provavelmente abriu a porta, cantarolou e foi embora flutuante alguma vez.

Digo isso porque as pessoas chegam distraídas, abrem a porta da geladeira, fazem algo particular da sua coisa buscada em questão e vão embora determinadas a sabe lá o quê sem nunca pegar comida. Nunca. Ou melhor, quase nunca, não esqueçamos das madrugadas.

Elas agarram alguma coisa invisível congelada por entre as cumbucas e potes gélidos. Algumas vezes saem frustradas, mas eu entendo. Se suas perdas não estão na geladeira, estão onde, meu Deus do céu?

Ontem, por minha vez, abri a porta ao meio-dia, procurando teimosia e ela estava, como sempre, muito fria. Essas coisas não se esquentam no forno, todo mundo sabe.

Pois. Entre o meu abrir e fechar de portas, estou aprendendo a deixar as friezas pra lá.

Clarice Freire.

 

Antiquada

Em uma cidade antiga, muito antiga, de quatro ou cinco casas antigas, muito antigas, ela resolveu fugir da cama.

Esperou anoitecer, até as paredes dormirem, para sair. Correu como quem ama.

Se soubesse para onde ia, não seria ela.

Simplesmente foi, porque a vontade de sentir o vento frio no rosto

a consumia feito vela.

O chão de pedra gelada nos pés sem sapatos. Nos olhos, o escuro.

Tinha alguma coisa naquela noite que a chamava pela janela e ela foi. Por cima do muro.

Se não tivesse ido, não seria ela.

Se não tivesse ido, seria morta.

Foi correndo pelo escuro sem saber aonde davam a viela

e a estrada torta.

Tão escuro era, que esquecia como era a luz.

Corria, corria, corria e, de repente,

esqueceu o que era o dia.

Percebeu aos poucos que a viela era tomada por vaga-lumes. Dezenas, centenas deles.

Não eram capazes de alumiar a noite em dia com seu brilho raro.

Mas a fizeram lembrar

como era o claro.

E saber por que, afinal, fugiu da cama.

É que a cidade não entendia, a agonia de quem ama.

E da noite faz cantiga.

É que dizem que o amor é coisa antiga.

Clarice Freire.

Antiquada.

 

Olha pra Rua de Sempre de Novo.

Hoje eu vou escrever um texto sem muitas preocupações com poesia e forma. Bem simplesmente, é só uma coisa que vi.

Estou passando alguns meses estudando criatividade aqui em Buenos Aires. A informação é apenas para ajudar no contexto do que eu vou contar. Dois meses em uma cidade cheia de vida e gente como esta, te dão a chance de viver determinadas coisas com muita calma. Com muita pressa também. Mas vou contar uma das coisas da calma.

Semana passada, minha dupla de criação,

Pri,

e eu, decidimos dar uma volta no Jardim Botânico. Fomos e cada uma levou seu objeto de ar pra respirar. Ela, a sua pasta de desenho. Eu, meu caderninho. Queria ver se teria uma chance de parar pra escrever num parque. Dessas coisas que morro de vontade de fazer todos os dias no Recife, mas a vida de trabalho toma todos os seus goles de tempo e você ainda fica morrendo de sede.

Andamos, rimos, turistamos (o lugar é lindo) e enfim paramos em um banco enorme. Nem Pri nem eu somos exatamente pequenas e nos espalhamos bem nele. Não demorou muito e ela mergulhou eu suas ilustrações fantásticas. Não demorou muito e eu deitei cansada sem pensar em nada, louca pra ter aquela pose maravilhosa de gente escrevendo no parque, mas minha velhice aguda não permite. Acho que não nasci pra isso. Acabo sempre escrevendo no escuro, antes de dormir. Zero glamour. Deitei, morri, voltei. Pri continuava nadando em seu desenho. Acabei me rendendo ao meu caderninho guardado e quase não sabia o que fazer. Eu teria horas só com ele e tinha mil coisas a dizer. Morar longe te enche de pensamentos porque você fica vazio. Vazio das coisas que normalmente preenchem seu tempo e sua mente. Periga você esvaziar a alma. Mas isso eu não consigo, é a matéria fundamental pra o meu saco vazio parar em pé. Me esforço muito pra dar de comer a ela.

Enfim me rendi e escrevi.Sem muito sucesso. Umas poucas linhas, umas coisinhas aqui, umas sinceridades ali. Já já elas aparecem por aqui. E eu já estava mesmo desistindo de escrever quando olhei de lado e os vi.

Sentados em um desses bancos enormes, só os dois, se encontrava um casal de meia idade. O que me chamou mesmo a atenção era que o banco não estava virado para a beleza do parque, pra onde Pri e eu havíamos fugido. Ele ficava perto da grade, que dava pra avenida movimentada e estava virado para ela. Os dois estavam ali sentados em silêncio, meio abraçados olhando apenas a rua. Comecei a esperar que se cansassem, que começassem a conversar, mas não. Eles passaram muito tempo olhando simplesmente a rua, sentados um ao lado do outro. A essa altura meu caderninho já estava me cutucando, pedindo atenção. Ignorei. Realmente estava agora com o casal, meio que impressionada, meio que curiosa, achando a cena estranha. Na verdade eles me lembraram duas pessoas assistindo televisão. A posição, o silêncio, o foco. Mas era só a rua o entretenimento.

Eu mesma já estava com os fones de ouvido faz tempo. Achava um insulto aquele barulho de ônibus mais alto que o silêncio do jardim. Eles passaram ainda o que me pareceram horas ali parados diante da sua gigante tela de cinema. Estrelando: o cotidiano.

O casal já tinha seus cabelos brancos. Acho que entendiam bem de cotidiano. O que fazia então que eles parassem para contemplá-lo? Nós, que vivemos presos ao cotidiano, às nossas pressas e barulhos, paramos para contemplar um jardim bonito, uma beleza qualquer, uma tela de TV que nos leve pra longe. Mas parar para admirar durante horas o nosso corriqueiro, o de sempre, como se fosse algo extraordinário que merece atenção?

Pensei então que eles talvez não se importassem com o que estava acontecendo na rua. O que valia era estar ali sentado ao lado dele e ele ao lado dela. Me perguntei de novo se isso também não já deveria ser corriqueiro. Um casal com seus cabelos brancos já teve anos e anos para sentar lado a lado e estavam ali como quem degusta daquele momento em silêncio.

De repente ele puxa algum assunto. Ela responde algo, mas sem desviar muito os olhos da rua, como quem não quer perder um detalhe do filme. Ele ri. Ela ri. Eles conversam. Os dois voltam os olhos para a rua. E eu ri também.

A rotina admirando o corriqueiro, que ria do de sempre que, por sua vez, estava de olhos fixos no trivial e todos ali, sentados,  pareciam um triângulo amoroso: o banco, o casal, a rua. Todos apaixonados entre si. Me vi admirando a capacidade daquele triângulo de parar para olhar a rotina, para sentir aquela pele de sempre, a piada de todos os dias, a buzina de ontem.

Simplesmente porque a vida está ali, se apaixonando de novo por ela, escondendo seus amores de quem passa com pressa.

Clarice.

De Passagem.

O que passa por mim não somente passa. Foi uma lei que criei no meu estado de direito. Como pode, meu Deus, um vento, brisa, alguém, coisa, divisa, passar por mim e não me avisa e ainda assim terminar como veio: igual? Não pode. Não pela minha lei. Não, eu não entendo nada de leis, confesso. Mas confesso que as crio mesmo assim, na rebeldia e na ignorância. Simplesmente porque são minhas e as minhas leis quem dita, respeita ou negligencia sou eu. Eu quebro minhas leis o tempo todo. Você não quebre, por favor. É uma das leis pra me amar. Eu sei que não é fácil, mas todas as leis têm suas belezas e feiúras. Por exemplo, esta sobre a qual falo a vocês.

O que passa por mim não somente passa. É proibido. Essa lei já foi fruto de uma ideia, foi promovida a um Sonho e desde lá se impregnou em mim feito perfume que entra na pele. Fiz um acordo de escambo com tudo e todos que passam por mim nesse espirro de vida: passou, levou um pedaço de mim, mas eu levo também. Ah, levo. E isso é inegociável. É quase um roubo mútuo, contudo, voluntário e com tudo.

Termina que hoje sou uma aparente normalidade tranquila, mas na verdade me tornei um grande depósito de passagens furtivas, demoradas, permanentes, de gentes, de estradas, de trens, gostos, casas e interior.

Como não transbordo?

Eu transbordo o tempo inteiro.

Mas distribuo riquezas que ganhei por aí,

Muito de bom, pouco de ruim,

Não precisa de dinheiro.

É só passar por mim.

Clarice.

Este texto foi resultado de ouvir seguidas vezes a nova música de Sofia Freire, minha irmã e do meu pai, Wilson Freire.
Poesia de família dá nessas coisas.

Tremeluzente.

Uma chama andava tão trêmula que não lembrava nem mesmo como se chamava. A chama não chamava mais ninguém também. Também pudera, ninguém gosta de chamas trêmulas. “Mas as chamas são trêmulas”, você vai me dizer. Acho que não, acho que as chamas são tremeluzentes. Tremem, mas suas luzes as deixam luzentes: muito mais que trêmulas apenas.

As chamas também têm uma chama para arder sem se consumir. Não me pergunte como, isso é um tipo de dom das chamas e quem não é chamado não pode entender. As chamas deixam os outros chamados, se é que você me entende. E quando elas ficam trêmulas, se consomem muito rápido, é um perigo. Assim elas podem desaparecer num estalo.

Pois essa chama andava tão trêmula que não tinha mais uma chama pra ninguém ser chamado e, na memória, era difícil achar o que foi tremeluzente um dia. Estava ficando escuro e frio demais e a memória precisa de Sol para combater as traças. Sem saber mais pra onde ir, a chama trêmula esperou o golpe fatal de uma rajada de vento mais forte que passeasse com mais ânimo por alguma esquina e a acertasse em cheio.

Passava por ali um viajante muito simples. Tinha algo que chamava no seu jeito estranho: pés de vento, coração incandescente e os olhos tinham cara de abraço quente. Ele carregava uma caixa na mão, cheia de sussurros que colhera pelo caminho. Eram difíceis de achar, esses sussurros.  Mas ele sabia como colhê-los e ensinava pelos lugares frios. Não me pergunte como, isso é um tipo de dom dos viajantes e quem não viaja não pode entender.  Seus olhos abraçaram a chama à primeira vista e, desde então, analisou com generosidade seu problema. Rapidamente ele sentiu a falta do luzente no trêmulo da chama.

Abriu sua caixa de sussurros derretendo o fecho com um pedacinho do seu coração incandescente. Escolheu os sussurros com cuidado. Seus olhos abraçavam um a um, soltando-os na chama, que tremia a cada um. Hora se apagava, hora se acendia, hora fria, hora quente. De um jeito sussurradamente eloqüente, a chama tremeu pela última vez.

E acendeu

Outra vez,

Tremeluzente.

Clarice Freire.

Porque encontramos um desses viajantes por esses dias. Esse post é um agradecimento a todas essas criaturas corajosas que saem por aí reacendendo chamas, com suas caixas de sussurros. Acho que todo mundo sabe quem são os seus.

E às chamas, pela valentia de teimarem em tremeluzir.

Este Texto Deve ser Lido sem Anestesia.

Nesses últimos tempos aconteceram uns contratempos que eu não tenho tempo pra contar, mas o fato é que eu praticamente quebrei um dente, mordendo com força demais. Pois é. Acontece nas melhores famílias de Londres. Eu não posso mesmo ir fish hunting com minha bow porque dói tanto. Por isso eu tive que levar umas dez anestesias pra poder aguentar as horinhas em que a dentista restaurava o estrago que fiz.

Vale dizer que eu também tenho pavor a agulhas. Pavor que eu digo é pavor mesmo: já desmaiei pra tirar sangue. Só de olhar pra agulhinha em minha direção, quase bati num enfermeiro que veio pra cima de mim, dizendo docemente pra ele “O QUE VOCÊ VAI FAZER COMIGO?” Como se estivesse em algum cativeiro e o sequestrador tivesse chegado com uma serra elétrica na mão.Acho que deu pra entender minha simpatia por agulhas.

Mas quando é com anestesia a conversa mudou. Percebi que adoro anestesia. É uma daquelas maravilhosas invenções do homem como o elevadore o ar-condicionado: eles poupam você da dor e do desconforto. Ela precisa da agulha, mas pensando que depois vai me livrar do sofrimento terrível de seja láo que for, disse pra dentista “não tem geral não?” e me impressionei comigo mesma, que mesmo com o coração acelerado quando via agulhinha se aproximando, ficava aliviada: não ia sentir nada depois.

Com isso acabei pensando sobre o mundo, que a meu humilde olhar, gosta muito mais de anestesia do que eu. As pessoas andam se anestesiando a todo custo, buscando justo esse “não sentir” tão cômodo e maravilhoso. Não sentir é a pedida do momento. Eu me envolvo com alguém até onde me é conveniente, mas não preciso sentir nada por ela. Eu trabalho porque estudei anos numa faculdade, tudo com um “para quê”, mas o “porquê” vaga anestesiado. Filmes anestesiam, músicas anestesiam, minha querida publicidade anestesia com promessas de felicidade em dez vezes sem juros. É difícil saber o que se quer da vida em uma geração que só quer tchum e tcha* e nem a anestesia fazendo efeito a gente sente.

E o verdadeiro sentido das coisas fica dormente, dormindo. Apalavra “sentido” já fala por si mesma. Sentido. Já foi sentido antes. O sentido é justamente o porquê. Anestesia, por sua vez, vemdo grego antigo: “ausência de sensação”; perfeito,não? Pensar no motivo de fazer as coisas não dá uma sensação, dá milhares e ao mesmo tempo: é melhor seguir anestesiado. Problema: anestesia passa. E por experiência própria, não é muito agradável. Tudo que foi feito ali deixasuas marcas e quando passa o efeito do anestésico, lá vem a dor tenebrosa. E aí ou se lida com ela ou…se anestesia de novo. Simples assim.

Assim seguimos anestesiando nossas coisas incômodas, aquela senhora incômoda na rua,

aquela criança com fome que incomoda na janela

,aquelas milhares de horas sem fazer nada incômodas, aquele incômodo “tem alguma coisa errada mas eu não posso fazer nada”. Apagamos o“in”, ficamos com o “cômodas” e está tudo certo.

Ultimamente tenho preferido tirar os incômodos debaixo da cômoda pra bater o tapete no sol e pronto. Sem anestesia se acorda para o dia. Quem acorda, não passa nulo por essa vida tão apressada de passar. “Dor dá e passa” já diz a minha vó. A vida passa e passa. Queria olhar pra trás lá na frente, sentindo todas as artrites que a velhice me der com uma sensação boa de que senti demais. Senti tudo. E sei qual é o gosto, a cor, o cheiro, a graça e a desgraça das coisas.

Clarice Freire

*nada contra quem escuta o tchum e o tcha. De verdade. Foi sóum bom exemplo.

Rindo Errado.

– Eu tenho cara de palhaço?!

Disse o palhaço enraivecido e em tom de desabafo, já tirando a tinta da cara. Tinha tido um dia sem graça, com gente sem sal e na verdade ele gostava muito de açúcar. Com açúcar é diferente de sem sal.

– Não.

Respondeu o espelho. Por essa o palhaço não esperava, afinal, aquele nariz não negava.

– Palhaçada! Quem me olha não duvida.

– Grande coisa a sua cara. Hoje ela está péssima. E a minha também por culpa sua. Não tem graça nenhuma.

O espelho costuma ser mais sincero do que gosta o palhaço. Também absolvia muito rápido seu estado de espírito. O palhaço, sabendo que era inútil argumentar, pegou uma tinta vermelha na mesa ao lado e desenhou um sorriso no espelho, exatamente onde estava refletida sua boca murcha.

– Pronto. Você vai ficar sorrindo o tempo todo agora e não depende mais de mim, espelho ranzinza.

– Então você vai pintar as caras na rua?

– Hã?

– Quem passa na sua frente é espelho seu igual a mim, só que alguns também são atores. Eu sou sincero demais pra isso.

O palhaço sem sal ficou desolado. Ele já não suportava um espelho na sua vida com uma sinceridade tão incômoda que o levava a ter vontade de quebrá-lo com energia. Mas não era possível. Não dava para um palhaço viver sem um espelho. Ninguém vive sem uma fonte de auto-amor tão apaixonante como um espelho na sua frente. É assim que as pessoas se apaixonam por si mesmas. Já não bastava esse objeto irritantemente viciante ele ainda tinha que aguentar as pessoas nas ruas agora? Não. Ele não suportaria.

– E como é que você quer que eu faça espelho ingrato? Já não basta meu ridículo na sua frente todo dia? Você tem que rir quando eu rio, chorar quando eu choro. Implantar um sorriso em você é fácil. E no resto do mundo?

– Você está rindo errado, seu palhaço. Carcaça não tem graça.

  Bote sal nesse sorriso agora,

  Pra rir de dentro

  Pra fora.

Clarice Freire.